Mensagens encontradas pela PF mostram Roberta Luchsinger descrevendo participação discreta do filho de Lula e afirmando que os dois eram “uma coisa só”
Fonte: https://ocontribuinte.com/
Novas mensagens reunidas pela Polícia Federal ajudam a entender como a lobista Roberta Luchsinger descrevia, em conversas privadas, o papel de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, dentro do grupo de pessoas com quem mantinha negócios e relações próximas.
Em uma sequência revelada a partir do relatório da investigação, Roberta faz uma afirmação que chama atenção:
“Fábio não faz nada.”
Logo depois, porém, acrescenta:
“Ele só entra em campo qdo precisa.”
E conclui:
“Tem q se preservar.”
A escolha das palavras passa a ter relevância porque não aparece isoladamente.
Em outras mensagens encontradas pela PF, a própria Roberta dizia manter sociedade com Lulinha e apresentava os dois como integrantes de um mesmo núcleo de atuação.
“Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente eh mesmo irmão sabe”, escreveu em uma das conversas.
O conjunto dos diálogos levanta uma questão que agora interessa diretamente aos investigadores: o que significava, na prática, Lulinha “entrar em campo” somente quando necessário?
Um filho de presidente que precisava ser “preservado”
A frase ganha peso justamente pela condição de Fábio Luís.
Ele não ocupa cargo no governo.
Não possui mandato.
Mas é filho do presidente da República e, inevitavelmente, possui uma rede de relações que o diferencia de um empresário comum.
É nesse contexto que Roberta fala em “preservá-lo”.
As conversas não permitem concluir, por si só, que essa preservação tivesse objetivo criminoso.
Também não demonstram qual seria exatamente a atuação de Lulinha quando, nas palavras da lobista, ele “entrava em campo”.
Mas a Polícia Federal agora tem diante de si uma série de informações que podem ajudar a confrontar as declarações de Roberta com fatos concretos.
Reuniões.
Contratos.
Mensagens.
Interlocutores dentro do governo.
E possíveis interesses empresariais apresentados a órgãos federais.
“Somos uma coisa só”
Em outro diálogo de janeiro de 2024, Roberta foi ainda mais direta sobre a relação com Fábio.
“Fábio e eu somos uma coisa só.”
Não parou aí.
“Se um fala vai, tds vão.”
E finalizou:
“A gente eh mesmo irmão sabe.”
A linguagem demonstra uma relação de confiança bastante diferente daquela existente entre simples conhecidos.
Roberta também dizia manter uma sociedade com Fábio e Fernando.
Ao relatar a um interlocutor que o presidente Lula teria perguntado onde ela gostaria de ficar no governo, afirmou ter recusado a possibilidade justamente porque preferia permanecer nos negócios privados.
“Sabe, fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar.”
Em seguida:
“Eu disse: onde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.”
As mensagens foram reproduzidas pela revista Veja a partir do relatório da Polícia Federal.
Negócios chegavam ao governo
O problema para o grupo é que as mensagens sobre proximidade começaram a aparecer ao lado de negociações envolvendo cifras milionárias e órgãos do próprio governo Lula.
Segundo O Globo, Roberta teria encaminhado a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, uma minuta referente ao fornecimento de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
A operação poderia alcançar R$ 626 milhões.
Marcola foi chefe de gabinete de Lula e posteriormente integrou a coordenação de campanha do petista.
Ou seja, de um lado havia uma lobista que dizia ser sócia e praticamente irmã de Lulinha.
Do outro, um antigo homem de confiança do presidente com acesso direto ao núcleo político do governo.
E entre eles surgia um negócio que pretendia alcançar um ministério federal.
É justamente essa triangulação que aumenta a importância da frase:
“Ele só entra em campo quando precisa.”
Afinal, quando Lulinha “precisava” entrar?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes deixadas pelo relatório.
Quando exatamente Fábio entrava em campo?
Para falar com quem?
Em favor de qual negócio?
E por qual motivo sua participação precisava ser reservada?
Não há, nas mensagens apresentadas até agora, uma resposta definitiva.
Mas existem outras peças.
A Polícia Federal abriu investigação para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo Lulinha depois de encontrar elementos durante os desdobramentos da Operação Sem Desconto.
Uma das linhas de investigação busca esclarecer se o filho do presidente teria atuado para facilitar o acesso do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, a pessoas dentro do governo federal.
As tratativas também envolveriam o mercado de medicamentos à base de cannabis.
O contrato mencionado nessa frente, conforme as informações disponíveis, não chegou a ser concretizado.
Lulinha não é acusado de participar do esquema de descontos fraudulentos do INSS.
As investigações contra ele decorrem de outros elementos encontrados pela PF durante as apurações.
Roberta falava como alguém próxima das decisões de Fábio
Outra série de mensagens reforça a percepção de que Roberta participava de assuntos importantes envolvendo a vida do filho do presidente.
Em janeiro de 2025, ela discutia a saída de Fábio e sua família do Brasil.
“Vamos aguardar. Temos prazo pq Fábio vai embora.”
Depois:
“Eu em Março tenho q ir ver casa pra ele e escola.”
E, finalmente:
“As coisas irão acontecer pq eu tenho q tirar o Fábio e família do país até junho.”
Não é possível afirmar, apenas a partir dessas mensagens, que a mudança para o exterior tivesse relação com qualquer investigação.
Mas os diálogos demonstram novamente o nível de proximidade entre os dois.
Roberta não falava apenas sobre negócios envolvendo Fábio.
Falava sobre sua família, residência, escola e planejamento de mudança de país.
A PF agora precisa separar discurso de atuação real
Uma questão importante atravessa praticamente todas as novas revelações.
Roberta gostava de demonstrar poder e influência?
Ou efetivamente possuía toda a capacidade de articulação que dizia ter?
Essa diferença será decisiva.
Em suas conversas, ela afirmava ter acesso a Lula.
Dizia ter recusado uma posição no governo.
Chamava Lulinha de irmão.
Afirmava que eram “uma coisa só”.
Mantinha interlocução com um ex-chefe de gabinete do presidente.
Falava de negócios milionários.
E dizia que Fábio deveria ser preservado e somente “entrar em campo” quando necessário.
A investigação terá agora de transformar frases em fatos.
Será necessário descobrir se Lulinha efetivamente interveio em algum negócio, com quem manteve contato, quais interesses estavam envolvidos e se houve alguma vantagem indevida.
Por enquanto, as mensagens revelam ao menos uma coisa com clareza:
Na versão privada de Roberta Luchsinger, Fábio Luís não era uma figura distante. Era alguém do núcleo, que precisava ser preservado e acionado na hora certa.

