Plano de Governo proposto por Riedel coloca população idosa entre as prioridades e amplia ações para a terceira idade
Aos 81 anos, Euniria Marcelino encontrou na Universidade da Maturidade um espaço de convivência, aprendizado e autonomia, enquanto Eunice Francisca, prestes a completar 90, voltou a se sentir importante para a família e a sociedade. As histórias traduzem o desafio do envelhecimento em Mato Grosso do Sul, onde o Governo Eduardo Riedel amplia políticas de proteção, acessibilidade, esporte, inclusão e educação, com iniciativas como o Centro Dia, a Política do Envelhecimento Digno e a UMA.

Quando Euniria Marcelino de Souza chegou à Universidade da Maturidade, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), sua vida estava bem diferente da que leva hoje. Aos 81 anos, veterana da primeira turma do programa, ela conta que usava cadeira de rodas e enfrentava a depressão. Foi na convivência com colegas, professores e novas experiências que encontrou uma maneira de voltar a participar ativamente da vida fora de casa.
“Quando cheguei, andava de cadeira de rodas e hoje eu não preciso mais. A minha família teve que se reinventar com a minha vinda para a universidade, pois aqui sou valorizada com tudo que aprendi e posso ensinar aos mais jovens”, relata.
Para Euniria, o vínculo criado com a Universidade da Maturidade tornou-se parte de sua rotina. “Só saio daqui quando não tiver mais forças”, diz.
A experiência dela ajuda a traduzir um desafio que começa a ocupar espaço crescente na organização das políticas públicas de Mato Grosso do Sul. O Estado tinha 2,75 milhões de habitantes no Censo de 2022 e, como o restante do país, convive com uma transformação que chega primeiro às famílias: as pessoas estão vivendo mais, e a população idosa passa a exigir novas respostas nas áreas de proteção social, educação, acessibilidade, esporte, tecnologia e convivência comunitária.
É diante desse cenário que o Plano de Governo 2027–2030 apresentado pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, coloca a terceira idade entre os públicos prioritários do próximo ciclo de políticas públicas.
A proposta procura ir além de uma visão do envelhecimento restrita à assistência. O documento articula proteção social, bem-estar, acessibilidade, inclusão produtiva e participação pelo esporte, partindo da ideia de que chegar à velhice não precisa representar perda automática de autonomia, dos vínculos comunitários ou do espaço ocupado na sociedade.
Cuidado sem romper os vínculos familiares
Entre as medidas previstas está a ampliação da adesão dos municípios ao Centro Dia Para Pessoa Idosa, iniciativa destinada a pessoas que necessitam de acompanhamento durante o dia.
Além do atendimento, o modelo busca preservar a convivência familiar e comunitária, oferecendo uma alternativa de cuidado sem afastar necessariamente o idoso de seu ambiente cotidiano. Para os próximos quatro anos, a proposta é fazer esse atendimento chegar a mais municípios.
O Centro Dia integra uma estratégia mais ampla. O Plano de Governo estabelece como objetivo “consolidar políticas voltadas ao bem-estar das pessoas idosas”, associando essa atuação também à acessibilidade e à inclusão produtiva.
Na prática, significa reconhecer que alguém com 60, 70 ou 80 anos pode continuar querendo estudar, trabalhar, praticar atividades físicas, participar da comunidade e tomar decisões sobre a própria vida.
“Chegar aos 60, 70 ou 80 anos não significa que uma pessoa deixe de querer aprender, trabalhar, participar das decisões da comunidade, praticar atividades físicas ou manter uma rotina independente”, afirma Riedel.
O desafio colocado ao poder público é adaptar políticas historicamente concebidas para uma sociedade mais jovem a uma realidade em transformação.
Política do envelhecimento chega a mais de 60 municípios
Parte dessa mudança já começa a aparecer em iniciativas desenvolvidas pelo Governo do Estado.
Por meio da Secretaria de Estado da Cidadania, Mato Grosso do Sul vem construindo a Política do Envelhecimento Digno, com ações articuladas em mais de 60 municípios. O trabalho envolve governança, enfrentamento ao idadismo, convivência entre gerações e acompanhamento das políticas destinadas à população idosa.
Entre as iniciativas estão o CineMaturidade, conferências, fortalecimento dos conselhos da pessoa idosa, campanhas, palestras e projetos voltados ao combate ao preconceito relacionado à idade.
Há também ações de convivência e protagonismo em municípios como Campo Grande, Dourados, Corumbá, Três Lagoas, Ponta Porã, Caarapó, Camapuã, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo e Aparecida do Taboado.
A intenção é deslocar a política para idosos de uma atuação concentrada apenas nas situações de vulnerabilidade para uma visão mais ampla de cidadania.
“É uma rede que permite que a política para idosos deixe de ser vista apenas como resposta a situações de vulnerabilidade e passe também a tratar de cidadania”, afirma o governador.
Uma universidade para todos
É dentro da UEMS que essa mudança de perspectiva ganha um de seus rostos mais concretos.
A Universidade da Maturidade (UMA) é gratuita e recebe pessoas a partir dos 45 anos, independentemente do nível de escolaridade. A principal formação oferecida é o curso de Educador Político-Social em Envelhecimento Humano, com duração de três semestres presenciais. Quem conclui essa etapa e deseja continuar participando pode ingressar em um ciclo avançado.
O coordenador estadual da UMA/UEMS, professor doutor Djanires Neto, explica que a proposta se apoia no princípio da formação ao longo de toda a vida.
“Na UMA, nossos velhos trocam experiências, aprendem coisas novas e aplicam esse conhecimento em suas comunidades”, afirma.
As atividades passam por saúde, bem-estar, gerontologia, letramento digital, direitos humanos, cultura e meio ambiente. O conhecimento acumulado durante décadas pelos próprios participantes é combinado com novos conteúdos.
“Aproveitamos as experiências de vida e mesclamos com novos conhecimentos, gerando autonomia, letramento digital, comunicação assertiva, saúde e longevidade”, diz Djanires.
A procura indica que existe demanda por espaços desse tipo. O processo seletivo de 2026 recebeu mais de 625 candidatos, sendo 563 novas inscrições e 62 veteranos, o maior número já registrado pelo programa.
A primeira turma havia se formado em julho de 2024, com mais de 80 acadêmicos. Desde 2023, duas turmas já concluíram a formação em Mato Grosso do Sul, reunindo 190 pessoas, a maioria delas com mais de 60 anos.
Atualmente, outros 180 participantes integram as turmas em andamento da UMA Capital, UMA Indígena e UMA Quilombola, cuja formatura está prevista para dezembro.
A experiência também recebeu reconhecimento nacional. Em 2023, o projeto conquistou o Prêmio Darcy Ribeiro, concedido pela Câmara dos Deputados a iniciativas de destaque na educação.
Criada há 20 anos no Tocantins, a Universidade da Maturidade chegou a Mato Grosso do Sul por meio da UEMS em Campo Grande e posteriormente avançou para Jaraguari. A intenção, segundo a coordenação, é ampliar a presença do programa no Estado e consolidá-lo como política pública.
Aos 90, Dona Eunice ainda quer aprender
Dentro das salas da UMA, as idades ajudam a derrubar outra barreira. Os acadêmicos têm entre 45 e 90 anos.
Entre eles está Eunice Francisca de Souza Santos, nascida em novembro de 1936 e caloura da Universidade da Maturidade. Para Dona Eunice, voltar a estudar significou também recuperar a percepção de que continua tendo um papel para além do círculo familiar.
“Fazer parte da UMA é voltar a se sentir importante, não só para a família, mas para a sociedade de modo geral”, conta.
Na universidade, diz ela, há espaço para aprender com gerações mais jovens sobre tecnologia, robótica, prevenção de doenças e outros temas.
Eunice também decidiu transformar a chegada aos 90 anos em uma celebração compartilhada. O próximo aniversário será comemorado ao lado dos colegas e familiares na própria UMA.

“Vou comemorar meus 90 anos junto com meus colegas da UMA e vai ser uma grande festa”, afirma.
Histórias como as de Eunice e Euniria colocam em xeque uma ideia ainda recorrente: a de que haveria uma idade certa para aprender e que, ultrapassada essa fronteira, caberia ao idoso apenas assistir às transformações da sociedade.
Esporte para todas as fases da vida
O esporte é outra frente incorporada às propostas para os próximos quatro anos.
O Plano de Governo de Riedel para os próximos quatro anos estabelece que idosos, pessoas com deficiência, indígenas e outros grupos considerados vulneráveis tenham participação ampliada nas políticas esportivas estaduais.
A proposta trabalha com a ideia de esporte para “todas as fases da vida”, reunindo atividade comunitária, participação e rendimento.
Na atual gestão, a criação de categorias ligadas ao esporte master nas políticas de Bolsa Atleta e Bolsa Técnico já abriu espaço institucional para competidores de faixas etárias mais elevadas.
Para a maioria dos idosos, porém, a relação com a atividade física não depende de competição. Grupos de caminhada, atividades em praças e utilização de quadras e espaços comunitários podem representar também convivência, criação de vínculos e participação social.
Nesse desenho, esporte, integração e políticas de bem-estar passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre envelhecimento ativo.
Digitalizar sem excluir
Há ainda um desafio que cresce na mesma velocidade em que os serviços públicos migram para as telas.
Documentos, benefícios e atendimentos cada vez mais acessíveis por celulares e computadores podem simplificar a vida de grande parcela da população. Para quem tem pouca familiaridade com tecnologia, entretanto, a mesma mudança pode criar uma nova barreira.
O Plano de Governo prevê ampliar a acessibilidade digital dos serviços estaduais, mas combina essa modernização com a manutenção de diferentes formas de atendimento.
Embora a medida não seja exclusiva para idosos, esse público está diretamente entre os beneficiados. A lógica é evitar que inovação signifique exclusão: quem consegue resolver uma demanda pelo aplicativo pode fazê-lo, mas telefone, atendimento presencial e outros canais continuam necessários para quem encontra dificuldades no ambiente digital.
Algumas iniciativas já procuram reduzir essa distância. Em junho deste ano, o PCi-Conecta 60+, desenvolvido pela Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, realizou cinco ações e alcançou 405 idosos, aproximando serviços públicos de uma população que pode enfrentar obstáculos tecnológicos ou burocráticos.

O desafio agora é ganhar escala
As propostas para 2027–2030 mostram que a política voltada à terceira idade tende a deixar de ocupar um único compartimento da administração pública.
Os idosos aparecem na proteção social, na acessibilidade, no esporte, na educação, na inclusão e na própria organização dos serviços estaduais. Essa transversalidade parte de uma constatação: envelhecer não é apenas uma questão de assistência social.
Da Universidade da Maturidade às ações contra o idadismo, passando pelo esporte, pela participação social e pela Política do Envelhecimento Digno, Mato Grosso do Sul começa a estruturar uma rede que procura enxergar o idoso não apenas como alguém que eventualmente necessita de cuidado, mas também como uma pessoa que produz conhecimento, participa da comunidade e continua construindo sua história.
O próximo desafio será transformar diretrizes e experiências já existentes em políticas capazes de alcançar mais pessoas e municípios.
Para Euniria, essa discussão ganha uma dimensão muito menos abstrata. Aos 81 anos, depois de chegar à Universidade da Maturidade em uma cadeira de rodas, ela não fala em recolhimento. Fala em continuar.
Na convivência com os colegas, encontrou um lugar onde pode aprender e também ensinar. E, quando diz que pretende permanecer ali enquanto tiver forças, sua história resume aquilo que as políticas públicas para uma sociedade que envelhece precisam enfrentar: viver mais é apenas parte da questão. A outra é garantir que os anos acrescentados à vida possam continuar sendo vividos com autonomia, respeito, vínculos e participação.

