FONTE: Dourados News
Do uso de tecnologias mais avançadas que geram renda aos pequenos produtores até o cultivo para subsistência, a agricultura familiar tem como característica a pluralidade de perfis daqueles que estão à frente das pequenas propriedades. É justamente nesse contexto que a 6º Tecnofam (Feira de Tecnologias e Conhecimentos para Agricultura Familiar) começou hoje, terça-feira (09-06), em Dourados, município do Sul de Mato Grosso do Sul..
O desafio é apresentar alternativas aos que estão em diferentes realidades, ainda que integrem o mesmo setor. “Há aqueles que estão, inclusive, tecnologicamente mais avançados e encontramos questões até de insegurança alimentar que, talvez a maior necessidade desse seja até produzir para garantir uma soberania nutricional, por exemplo. Então, assim, há uma série de demandas e diferenças nesse setor que, inclusive, nós, enquanto Embrapa, precisamos entender para ver aonde a gente pode colaborar”, explica o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agropecuária Oeste e organizador do evento, Auro Akio Otsubo.

Ele explica que observando essa pluralidade, a maior demanda é certamente o acesso à tecnologia e gestão tecnológica que passam pelo processo de aumentar o rendimento, mecanização, entre outros fatores. “Ele [produtor] vai encontrar grande parte da sua solução, com certeza, aqui na feira. E o que não tiver, vai ser demanda para instituições, por exemplo, como a Embrapa”, pontua.
A feira conta com mais de 100 tecnologias entre campo experimental com cultivares e inovações apresentadas por pesquisadores, ferramentas digitais, maquinários adaptados à realidade das pequenas propriedades, insumos, olimpíada científica, espaço para crianças, exposição de produtos da agricultura familiar, entre diversas atividades que acontecem até quinta-feira, dia 11, na sede da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados.
Estão agendadas, pelo menos, 80 caravanas de diversos municípios de Mato Grosso do Sul e a expectativa é de passem cerca de 3 mil produtores ao longo dos três dias, além de acadêmicos e técnicos ligados à área. O evento bianual completa 12 anos e é considerado o maior do setor no centro-sul do país.
A diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Margarida Castro Euler, pontua que o setor representa a segurança e soberania alimentar do povo brasileiro e, portanto, precisa estar conectada a tudo de mais moderno que o produtor puder acessar.

“Isso não seria possível se a gente não tivesse a capacidade de organizar um ecossistema de inovação que une governo federal, estadual, municipal, instituições de ciência e tecnologia, de assistência técnica, organizações de produtores e conectando isso tudo com mulheres, indígenas, quilombolas, enfim, com a diversidade que é essa agricultura familiar do Estado”, acrescenta.
Ela lembra que a Tecnofam ainda está inserida em um contexto de transições com os quais instituição de pesquisa trabalha atualmente, como a climática, energética, geracional e de inclusão digital. “Essas tecnologias que estão aqui, procuram trazer sustentabilidade, eficiência, aumento de produtividade e, óbvio, dinheiro no bolso do produtor, porque não existe sustentabilidade sem o pilar social”, pontua a pesquisadora.
“A gente tem entendido que a agricultura familiar precisa avançar. Não dá para a gente ficar ainda na era do tradicional, onde nossos pais, com a enxada, com o rastelo, estavam ali produzindo, plantando. Hoje, inclusive, para sucessão rural, para juventude, para os novos agricultores que estão no Estado todo, eles precisam ter acesso à tecnologia. Eles precisam saber que a política pública te dá direito a financiar um grande equipamento, comprar um trator, largar de lado a enxada, os equipamentos mais conservadores, e você acompanhar a evolução”, acredita a superintendente do MDA/MS (Ministério Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar em Mato Grosso do Sul), Marina Ricardo Nunes Viana.

POLÍTICAS PÚBLICAS
Para Antônio Paulo Ribeiro, diretor-presidente da Apoms (Associação de Produtores de Orgânicos de Mato Grosso do Sul), as tecnologias apresentadas na Tecnofam facilitam o trabalho do agricultor. “Deixa menos ‘penoso’, assim o agricultor pode ter uma melhor produção, uma produtividade maior também”, acrescenta.
Na visão dele, o principal desafio é investimento público para desenvolvimento do setor e acesso ao crédito. “Financiamentos mais acessíveis, emendas parlamentares, os gestores poderem olhar, contribuir dentro das suas secretarias, principalmente agricultura, educação, valorizando a produção, colocando isso dentro dos programas institucionais, que eu acho que é super importante também”, acrescenta o diretor-presidente.

De acordo com a organização da feira, um dos diferenciais deste ano é a apresentação de políticas públicas de fomento por parte de órgãos das três esferas de governo, como forma de suprir essa necessidade dos agricultores.
Para Artur Falcette, secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), o crescimento do Estado três vezes acima da média nacional passa pela atividade agrícola, com papel relevante da agricultura familiar junto com a comercial em larga escala.
“Elas se complementam, garantindo que a gente tenha suficiência no nosso estado, na produção para alimentar a nossa população e capacidade de gerar excedente para exportação. Nesse sentido, esse espaço aqui [da Tecnofam], é muito importante. Aqui a gente tem tecnologia, inovação, uma série de oficinas técnicas e é uma oportunidade de o agricultor familiar vir, olhar para temas que são estratégicos hoje para pequena propriedade rural, se capacitar cada vez mais e continuar contribuindo com esse momento que o Estado vive”, acredita o secretário.

Ele cita como ação fundamental o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) que ultrapassou a meta estabelecida pelo Governo Federal. “Esse programa garante não só que os produtores rurais tenham a capacidade de comercializar seus produtos, mas esses produtos vão para populações que são vulneráveis, então atende muito bem as duas pontas”, complementa.
O secretário também pontua outras ações como as de extensão tecnológica com equipe de assistência rural, residência agrária para profissionais recém-formados, entre outras atividades.
Em Dourados, o prefeito Marçal Filho também destaca o PAA como principal avanço no setor, com recorde de produtos comprados e vendidos, especialmente na Reserva Indígena, com aporte de R$ 500 mil do MDS (Ministério do Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome) para implantar o primeiro PAA indígena do país.

O prefeito ainda pontua que há uma tratativa com o MDS também para aportar recursos para compra de sementes para distribuição nas aldeias. “Claro que [as ações] não se restringem somente à Reserva Indígena, mas também aos pequenos e médios agricultores. E a gente, enquanto prefeitura, está fazendo vários acordos com essas associações de agricultura familiar para dar a eles condições para isso, doando a área para eles se instalarem, doando equipamentos, numa parceria com o Governo do Estado. Estamos avançando bastante nesse setor”, acredita Marçal.

