“As marcas, com quem trabalho, chegam de um jeito profissional, já me conhecem e conversam com meu propósito”, diz Mariana. “O que eu falo, meus seguidores acreditam. Se alguém for prejudicado, vai ser por minha causa. Que resposta eu vou dar?”, questiona ela.
A influencer afirma que já conviveu com pessoas próximas viciadas em aposta, e, por isso, é totalmente contra.
O professor universitário e influenciador Rafael Belli também já recebeu o que classifica como “propostas escandalosas”. Ele tem 1,4 milhão de seguidores no TikTok.
Uma delas pagaria R$ 20 mil por um vídeo educacional sobre como as pessoas deveriam jogar com responsabilidade. “Quase aceitei, mas percebi que seria mais publicidade velada”, diz. A outra pagava o mesmo valor por mês e mais uma porcentagem de quanto seu seguidor gastava na plataforma.
“O valor é tentador mesmo. Se estivesse numa condição diferente, talvez me balançaria. Mas não sei se conseguiria dormir a noite”, afirma. “Na universidade, já há muitos casos de alunos que pararam de pagar mensalidade para jogar no tigrinho.”
Um de cada três brasileiros de 16 a 24 anos afirma que já apostou, mostra o Datafolha. É o dobro da média de 15% para todo país. Os números ajudam a explicar os quase R$ 50 bilhões gastos por brasileiros em apostas online no ano passado, segundo o Banco Central.
“Estamos vivendo uma epidemia e os influencers tem sua culpa no cartório”, afirma a especialista em marketing de influência Gigi Grandin. E as marcas têm notado isso. “Hoje, é muito comum as empresas fazerem um pente fino na carreira do influenciador antes de uma parceria”. Ou seja, se já anunciou casa de aposta ou cassino, por quanto tempo e de que forma, explica.
“Os influencers precisam se tocar que é desigual o trato entre pessoa física e jurídica”, diz. Quando um canal de TV anuncia em uma casa de aposta, por exemplo, as repercussões são totalmente diferentes das de um influenciador, afirma ela.
As implicações não só impactam a carreira, como também podem gerar processo. “A partir do momento em que um influenciador atrela sua imagem a algum produto, é como se ele desse chancela de qualidade”, afirma Danielle Biazi, advogada especializada em direito civil.
É como se uma varejista vendesse um produto defeituoso. “O consumidor, com razão, iria buscar seus direitos com quem produziu bem como quem vendeu”, diz a advogada. Ela aponta que os Procons (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) pelo país têm aplicado essa interpretação.
As decisões de âmbito civil e penal já abalam o mercado. “As prisões serviram de exemplo, de que não é terra sem lei como achavam. O pessoal vai analisar mais com quem faz parceria”, afirma Eduardo Feltrin, do TuristandoSP, que conquistou 1,1 milhão de seguidores no Instagram através de avaliações de restaurantes e pontos turísticos.
“Nós sempre recebemos propostas estranhas, mas depois da Blaze virou algo generalizado e sem limites”.
A Blaze é um cassino online que atraiu muita atenção em 2023, tanto por patrocinar celebridades quanto por denúncias de usuários de que a plataforma não pagava o que prometia aos jogadores. A Justiça bloqueou R$ 101 milhões do site à época.
Feltrin disse que recebeu uma proposta da plataforma de mais de R$ 1 milhão para divulgá-la em seu perfil.
“Nos balançou”, confessa Carol Barduk, co-autora do TuristandoSP e namorada de Eduardo. “Mas vemos que foi a decisão certa. Hoje há um racha em quem anuncia apostas e quem fica de fora. Fico chateado, porque já me afastei de muitas pessoas do meio. Considero falta de caráter.”
A reportagem tentou contato com as casas de apostas mencionadas, que não possuem sede no Brasil, mas nenhuma delas retornou.
*Informações da Folhapress