Brasileira em Kiev relata drama em abrigo que divide com 30 adultos e 10 bebês de barriga de aluguel

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Kelly Müller foi à Kiev, junto do marido, para buscar a filha que nasceu no dia 27 de janeiro deste ano. Agora, dentro de um abrigo de 40 m², com outros 30 estrangeiros divide a angústia de sair do Ucrânia.

Por  g1 MS — Mato Grosso do Sul

Uma sala de 40 m², com cerca de 40 pessoas – entre adultos, crianças e bebês recém-nascidos – . Alguns dos mantimentos que têm no local dão apenas para mais seis dias. Aquilo que antes era um refeitório que atendia estrangeiros que vão à Ucrânia para buscar filhos gerados em barrigas de aluguel, agora se tornou um abrigo improvisado. Assista ao vídeo acima.

Depois da saga de cruzar o oceano Atlântico, enfrentar o fechamento de fronteiras por conta da Covid e cancelamentos de voos, o casal de brasileiros Kelly Lisiane Muller e Fabio Wilkes chegou a Kiev – capital da Ucrânia – e vive momentos de tensão.

Já com a filha recém-nascida, Mikaela – gerada em barriga de aluguel -, nos braços, os dois brasileiros se juntaram a outras famílias que buscam locais mais seguros em Kiev para se protegeram da invasão russa.

Kelly conversou com o g1 e contou como é a rotina dentro do abrigo improvisado oferecido pela empresa que realiza o processo de fertilização e reprodução humana assistida na Ucrânia. “Nós descemos, nesta manhã, para o abrigo. Tinha salame e meu marido saiu para comprar pão. Aqui tem alguns mantimentos”, relata Kelly.

“Escutamos explosões, olhamos pela janela e tem filas de carros parados. É cenário de filme. Quando a minha filha sorri e esqueço que tem uma guerra lá fora. Estamos de mãos atadas, não tem o que fazer com uma bebê recém nascida nos braços”, relatou.

O abrigo é improvisado. Kelly conta com detalhes sobre o ambiente na tentativa de fugir sobre o assunto que causa tensão: o conflito entre Rússia e Ucrânia; a qual a brasileira, marido e filha estão vivenciando de forma próxima.

“O abrigo é uma sala maior que tem as mesas, agora estão estendidos os edredons, o pessoal está deitado. Tem uma parte menor que fica o refeitório. No refeitório tem três geladeiras, uma está abastecida com iogurte, outra com refrigerante e uma com água”, detalha a brasileira.

Rotina no abrigo

Janela do andar em que Kelly estava antes de descer para abrigo improvisado. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

No local estão estrangeiros da Itália, Alemanha, Noruega, Turquia e outros do Brasil. Todos que estão no abrigo improvisado foram para Ucrânia para buscar os filhos que foram gerados por reprodução assistida.

“Minha bebê chora quando está com fome, é a manifestação dela, então quando ela chora é um choro mais estridente e temos que correr para fazer mamadeira. Enquanto tem criança que brinca, criança que dorme e adultos ligados o tempo todo ao celular tentando falar com as embaixadas. É uma mistura de sensações. Como vou explicar? Enquanto as crianças são ingênuas, os adultos estão preocupados”, detalha a brasileira.

Já era noite na Ucrânia quando Kelly conversou com o g1, a fala da jornalista foi interrompida por conversas em outras línguas, alguns choros, som de algum aparelho televisor e em dois momentos específicos a mulher disse: “Escutamos explosão agora… Ouvimos mais uma explosão. Senti o tremor, mas estamos no subsolo”.

Os estrangeiros, junto ao casal brasileiro, fizeram as malas e se dirigiram para a estrutura anti-bombas (um bunker), localizada no subsolo de um prédio de oitos andares. Onde estão abrigados tem apenas um banheiro, nenhum fogão, uma cafeteira com pó de café que pode durar até um dia e algumas camas improvisadas.

“Tem gente que desceu edredom, alguns desceram colchão para as crianças, tem gente que trouxe colchão inflável. Neste momento estou sentada em uma cadeira segurando a Mikaela e não pensei em como vou deitar, não chegou esse momento ainda. Ainda estou simulando as coisas por aqui”, em um tom pausado, disse Kelly.

Preparo para ir ao abrigo

Kelly e outros brasileiros que estão no abrigo em Kiev. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Entre o clima de tensão, Kelly se diz não conseguir assimilar os sentimentos. Para passarem o tempo que foi necessário no abrigo, a brasileira e os outros estrangeiros se preparam. Primordial neste momento, o leite foi um dos itens indispensáveis.

“Acho que cada um aqui se preparou. Nós temos para alguns dias leite, nós compramos pra voltar para o Brasil, compramos para fazer a transição do leite para o Brasil. Então temos umas caixas a mais, o leite temos para alguns dias”, contou.

 

Mercados e alguns estabelecimentos ainda estão abertos. A compra de mantimentos ainda é viável, mas Kelly não sabe até quando será.

“Mercado estava aberta, rua estava tranquila, ele saiu, comprou pão e a gente comeu com salame e essas coisas assim. […] Esse subsolo dava suporte para os apartamentos que estava encima dele e dava suporte para outros apartamentos ao lado. Fora isso tínhamos um baby room, onde ficavam enfermeiras e babás, para caso precisássemos se deslocar para tirar um documento”.

Saída da Ucrânia

O casal se prepara para deixar a Ucrânia em segurança. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A apreensão é total, em todo momento. Kelly acredita que durante o conflito e o momento de maior tensão, a melhor opção é permanecer no abrigo. Um trem com brasileiros residentes na Ucrânia partiu nesta sexta-feira (25), às 17h (pelo horário de Brasília; 22h no horário local) da capital Kiev com destino à cidade de Chernivtsi, no oeste do país.

“Tenho medo de acontecer no trajeto, esse é o motivo para não sairmos. Essa é nossa preocupação: nossa segurança. Agora não é hora de se expor, sair na rua, ficar preso num carro, correr o risco de ficar em um fogo cruzado ou correr o risco de ficar de frente com um grupo. Esse é o motivo que faz a gente permanecer”, disse Kelly.

Mikaela já tem alguns documentos, outros estão sendo processados pela embaixada brasileira. Kelly explica que as documentações são fundamentais para a saída da Ucrânia de forma legal.

“Os documentos das crianças não ficaram prontos [incluindo de Mikaela], embaixada está fazendo. Eles [embaixadas] estão em contato com outras embaixadas perguntando se queríamos pegar um trem, mas optamos por ficar. Até chegar nesta estação de trem, não saberíamos nada”, comentou a jornalista.

Kelly, Fabio e agora Mikaela

Kelly e o marido Fabio Wilke estão juntos há mais oito anos. Ela teve três gestações que não foram para a frente. Depois de várias tentativas, o sonho quase foi deixado de lado. O método de gestação de substituição (barriga de aluguel) deu um novo sentido na vida dos dois, que buscou por clínicas especializadas na Ucrânia, que é muito procurada por casais do mundo todo.

Ainda em solo ucraniano, Mikaela é cuidada pelos pais — Foto: Arquivo pessoal/ Reprodução

Kelly relatou que chegou à Ucrânia no dia 7 de janeiro para acompanhar o nascimento da filha. Há quase dois meses em Kiev, ela conta que não esperava que o conflito pudesse realmente ocorrer, porque nos últimos dias a situação estava mais tranquila.

Kelly está na Ucrânia pela segunda vez e agora finalmente tem suas filhas no braço, porém não imaginava que estaria em uma situação como essa.

“Em abril do ano passado estávamos aqui e já havia momentos de tensão, mas a Rússia sempre recuava. Não imaginamos que chegaria a esse ponto, estava muito calma quanto a possível guerra até quarta-feira. Quando abri as notícias, eu percebi que realmente a Rússia tinha invadido”, apontou.

 

Ela descreve que a incerteza é grande, e que as informações mudam em fração de minutos. “Por aqui todos estavam calmos e tentando levar a vida, até que na madrugada de quarta-feira, acordei para ver minha bebê de madrugada e depois vieram as explosões”, disse.

Além da tensão e incerteza de que o conflito com a Rússia se agravasse, Kelly e o esposo testaram positivo para Covid no dia de conhecer a filha.

Em Kiev, o plano inicial era regulamentar a documentação da filha e retornar para casa o quanto antes, mas o casal precisou passar 9 dias em quarentena e lidar com burocracias que atrasaram o retorno e fez com que estivessem no país durante a guerra.

A brasileira diz que, apesar de saber da crise entre Kiev e Moscou, não imaginava que a escalada de tensão se daria logo agora. “Mikaela nasceu no dia 27 de janeiro, pouco antes eu e meu esposo nos sentimos mal e testamos positivo para a Covid. Ficamos isolados por nove dias, o que atrasou nosso retorno para o Brasil”, apontou.

Tensão e alento

Mesmo com toda tensão, o momento em que Kelly fala da filha é diferente. Se manter na Ucrânia até que a situação se amenize é uma opção pela segurança de Mikaela, comenta a mãe da menina.

“Enquanto conseguirmos nos movimentar, comprar comida e ter comida aqui dentro, vamos conseguir nos manter. […] Difícil de falar de sentimento neste momento, quero que tudo se resolva rápido. Quero que a Rússia e a Ucrânia se resolvam logo”, expressa.

“Nada vai tirar a alegria de eu ter minha filha no braço. O sentimento que muda é a necessidade que eu tenho de proteger ela, de não pensar só em mim, só isso! Mas sim, nos preocupamos, mas agora por ela. Nada vai tirar a alegria de eu ter ela no braço e de ver o sorriso dela”.

 

Milhares de moradores de Kiev ainda tentam deixar a capital da Ucrânia, após a Rússia iniciar a invasão a várias partes do país. A cidade começa a viver um caos.

O clima de tensão é iminente e a mudança na rotina foi repentina, como Kelly detalhou em entrevista ao g1MS. “A Rússia está invadindo o país, não tem como pegar um ônibus ir embora. Em horas, tudo mudou. A gente tenta passar tranquilidade, mas é muito assustador”.

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