-O caminho das armas que ingressam ilegalmente no Brasil se alinha a geopolítica das principais facções criminosas-

Um dos ícones da independência do Paraguai, Pedro Juan Caballero dá nome à cidade que faz fronteira com Ponta Porã e tem a marca de um forte comércio popular. No zum-zum-zum das ruas, as ofertas se estendem de estimulantes sexuais a eletrônicos.

Mas a Linha Internacional é a principal porta de entrada para itens bem menos prosaicos: armas de guerra e munições. Fabricadas mundo afora, armas ilegais passam pelo país vizinho, ganham as vias de Mato Grosso do Sul e chegam a São Paulo e Rio de Janeiro.

Ex-superintendente da PF (Polícia Federal) e especialista em segurança pública, Edgar Marcon afirma que passa por Mato Grosso do Sul armas de todas as origens.

“Temos as de fabricação americana como AR15, que entram clandestinamente via Paraguai. Além das AKs de origem Russa e fabricadas sob licença em diversos países como Coréia do Norte, China e até na Venezuela. Além das HKs de origem alemã, Glock austríaca e muitas outras. Há de se registrar que no ano passado o Paraguai cancelou as importações legais de fuzis”, afirma.

O caminho das armas que ingressam ilegalmente no Brasil se alinha a geopolítica das principais facções criminosas: PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho).

“Partindo do conhecimento que os dois maiores grupos criminosos têm suas origens no Rio de Janeiro e em São Paulo e, que disputam espaço, podemos afirmar que o grupo de São Paulo utiliza muito as fronteiras paraguaia e boliviana com o MS, onde tem maior domínio. Já o grupo do Rio de Janeiro utiliza mais a fronteira com o Paraguai no Paraná, além dos portos e aeroportos cariocas. Mas, não se pode dizer que isto seja regra, porque o crime age em qualquer lugar onde encontre facilidade”, destaca Marcon.

O grupo de São Paulo utiliza muito as fronteiras paraguaia e boliviana com o MS, onde tem maior domínio”, afirma Edgar Marcon. (Foto: Saul Schramm/Arquivo)

De acordo com o delegado Alan Wagner Nascimento Givigi, da Polícia Federal, a facilidade na importação justifica a “preferência” pela fronteira entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai para ingresso de armas ilegais.

“As armas são provenientes do Paraguai, mas não são fabricadas lá e sim importadas de países como os Estados Unidos”, diz o delegado. A partir de Mato Grosso do Sul, seguem para São Paulo e Rio de Janeiro.

Conforme a Polícia Federal, 54 armas foram apreendidas entre janeiro de 2018 e 25 de julho deste ano, sendo a maioria revólveres e pistolas. No mesmo período, o total de munição recolhida chegou a 3.432. O comércio ilegal de arma de fogo e o tráfico internacional de arma de fogo são punidos com reclusão de quatro a oito anos.

“Estamos em uma ação conjunta na região do Conesul, em Mundo Novo, com foco no bloqueio na ponte sobre o Rio Paraná, para não entrar tanto contrabando, assim como evitar outros crimes. Também existem operações de inteligência para desarticular as organizações criminosas. Estamos em um caminho bom, sempre buscando ações integradas”, afirma o superintendente da Polícia Federal, Cleo Mazzotti.

Muito mais fácil – Inspetor da PRF (Polícia Rodoviária Federal), Tércio Baggio afirma que as armas ilegais chegam ao Brasil pelas fronteiras, portos e via aérea. “Entrar com arma de fogo é muito mais fácil do que com droga, devido ao volume. No tocante à nossa realidade, as armas de fogo entram mais pelo Paraguai. É um país muito livre do ponto de vista comercial e se aproveitam dessa estrutura para circulação de mercadorias”, afirma.

Para dificultar flagrantes, as armas viajam desmontadas. No caso da pistola, por exemplo, o corpo da arma é separado. “Embora a gente trabalhe para combater, a apreensão de armas não tem números tão expressivos quanto de drogas. E não falta arma no Rio de Janeiro. São transportadas desmontadas e driblando a fiscalização”.

O efetivo da PRF no Estado é de 400 policiais, sendo necessário o dobro. A fiscalização utiliza scanner e cães que farejam munição. Neste ano, foram apreendidas 32 armas de fogo e 7.652 munições. Em 2018, o total foi de 120 armas e 24.608 munições. Mato Grosso do Sul tem 1.517 quilômetros de fronteira, sendo 1.131 km com o Paraguai e 386 km com a Bolívia.

Delegado Alan Givigi e Cleo Mazzottti, chefe da PF em Mato Grosso do Sul. (Foto: Ronei Cruz)Delegado Alan Givigi e Cleo Mazzottti, chefe da PF em Mato Grosso do Sul. (Foto: Ronei Cruz)

Poder de fogo – Protagonista da execução de Jorge Rafaat Toumani, que chocou MS pela demonstração de força do crime organizado, o fuzil calibre .50 tem registros de três apreensões pela PRF, duas com ingresso pela Bolívia e uma pelo Paraguai.

A “fama” é de derrubar até aeronave. “A grande vantagem dessa arma é que consegue transpassar várias superfícies, tem poder de furar blindagem e consegue transpassar um pedaço de trilho. Uma pistola, no máximo, deixa marca no trilho”, diz Baggio, ao exemplificar a potência da arma.

Em junho do ano passado, uma arma calibre .50 foi apreendida na BR-262, Três Lagoas, caminho para São Paulo. O condutor disse que pegou o carro em Ponta Porã, com as armas já escondidas.

Segundo Baggio, a maioria dos crimes praticados no Brasil é com armas ilegais. “Não é com a arma comprada na loja, onde o cidadão tem que apresentar quase o currículo escolar, ser ficha limpa, comprovar emprego e endereço fixo. No mundo paralelo, não passa por isso”.

(Material extraído integralmente do CGNews)
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